desenho de Lu Guidorzi
basta um clique!  

berro - a parte inútil da vaca
Publicação esporádica destinada a perder-se como berro de vaca que, todavia muge, apesar da inutilidade declarada de seu berro.

 

O gogó

08/05/01

"aspas"

"Vi as grandes raivas do mouro, por causa de um lenço - um simples lenço - e aqui dou matéria à meditação de psicólogos deste e de outros continentes, pois não pude me furtar à observação de que um lenço bastou a acender os ciúmes de Otelo e compor a mais sublime tragédia deste mundo. Os lenços perderam-se, hoje são precisos os próprios lençóis; algumas vezes nem lençóis há, e valem só as camisas."

Machado de Assis, Obra completa, Rio de Janeiro, Nova Aguilar, 1985, vol. I, p. 934.

No final da década de oitenta, como sempre através de um belo desenho, Millôr Fernandes disse, em página de revista que, diante da possibilidade de tudo ser implantado, postiço, enxertado etc. só restava um jeito seguro de saber o sexo do ser humano: pelo gogó. O gogó, o pomo-de-adão, dizia ele, não dá para falsificar, só os machos têm. (Apesar da cobra e da maçã, ainda não inventaram o pomo-de-eva, digo eu).

Se você começa a prestar atenção ao gogó, logo se esclarece sua relação com o sexo: a "saliência da cartilagem tireóide", como explica o dicionário, não está ali para lembrar o fruto proibido, engasgado para sempre em nossas gargantas como sinal do primeiro pecado do primeiro homem, inevitável, aliás, diante do deslumbramento da descoberta dos primeiros pecados da primeira mulher. O gogó é apenas uma caixa de ressonância, maior no macho para produzir voz mais grave. Assim como a caixa de um voloncelo é maior do que a de um violino, por exemplo. Aliás, deve ser possível substituir o gogó por captadores semelhantes aos das guitarras eletrônicas.

foto mais feia do século
Fotografia de moda publicada por uma grande revista.

Os biólogos especializados em evolução devem saber explicar essa necessidade dos machos humanos. Para que serve a voz mais grave e mais potente? Meu palpite é simples, para ganhar no grito, na briga de vozes, coisa bem masculina. As vozes sobem, o tom se torna ameaçador, quem ouve, de fora, fica incomodado. É como latido de cachorro. Talvez seja uma forma de evitar ou adiar uma agressão física. Mas tudo isso é chute, não passa de palpite!

detalhe do gogó
Detalhe da foto. Supõe-se que a modelo seja do sexo feminino.

De qualquer modo, a voz feminina é, mais aguda, mais estridente, mais apropriada para sussurrar. Quem sabe se para ouvidos de criança, acostumados com a voz também aguda de outras crianças, o timbre feminino soa mais confiável, mais conhecido, mais... Ah, chega de palpitar!

Nenhum palpite, todavia, para explicar porque no rádio, apenas som, sem imagem, abandonou-se a escolha pela voz. Outrora o repórter reportava, ao redator que redigia o que o locutor lia com voz neutra, escolhida por ser agradável. Hoje, num noticiário de rádio há mais timbres e cacarejos do que entre aves exóticas no zoológico. Tem mais: a voz também é, por assim dizer, rosto da alma, e reflete ansiedade, medo, afobação etc., sentimentos que contaminam... pela voz.

 

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