crônica do dia

 

O pequeno passo

24/01/01

 

Quando o homem pôs os pés na Lua e o mundo bateu palmas e chorou de alegria, Gilberto Gil alertou "poetas, seresteiros e namorados" para o risco de não termos mais noites enluaradas. Talvez já não as tivéssemos então e continuamos a apagar o luar com as luzes das cidades. Por enquanto, ainda sobra o luar do sertão.

Provavelmente, o alerta do poeta não se restringia ao brilho prateado refletido em corações apaixonados. Seria, antes, uma metáfora para todas as perdas da civilização de tecnologia e ganância. Já se foram muitas pequenas coisas, bobagens que encantaram ou assustaram nossos avós. O mistério do sexo do bebê incógnito até o parto, por exemplo. Talvez assim o médico, ou parteira, se sentissem mais próximos, mais envolvidos por serem arautos da grande nova daquele momento.

Perdeu-se também a incerteza da paternidade. Um dos pilares do comportamento humano (provavelmente, também do dos grande primatas) e manancial inesgotável de inspiração para todo contador de histórias, do mais obscuro ao mais celebrado. A literatura e seus derivados lidarão, agora, com o teste que se supõe infalível. Por certo, até que ciência crie os meios para falsificá-lo...

Mas o que se perde mesmo, com a permissão do Gil, são poetas, seresteiros, namorados e um modo de viver mais descontraído, sem tantas trancas e trecos; com mais comunicação entre as pessoas, embora sem os mirabolantes meios de comunicação que apitam, vibram, vêem, falam, escrevem, escutam e sei lá que mais. O que se perde é um encanto e uma certa magia...

Há muito o Homem segue essa trilha, sempre deixando pra trás o tal encantamento e seguindo a seta da ciência e tecnologia. Mas não foi o saber e as máquinas, apenas, que fizeram nossa sociedade - houve muita fome e sede de poder, muita inveja, muita avidez, ciúme etc. Quando o homem puser os pés na Terra verá a urgência de uma sociedade com base em outros valores...

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