crônica do dia

Záz

26/09/01

Quando acordei ele já estava refestelado ao pé da cama, riso malévolo e um cigarro perfumado. Desviei o olhar, na certeza de que não existia e era apenas invenção alucinada de certas profundezas que desconheço ou sou incapaz de sondar. Foi inútil fingir e Satanás, nem te ligo. Envolvia-me mais e mais em baforadas cheirosas onde tabacos se misturam a lembranças que confundem o que foi com o que, apenas devaneio, se esboça em sonhos animados ou se embala nos alucinados versos, rabiscados, retraçados, reversos borrados e apagados... fala, Satanás!

Os pecados sorriam à direita, na ebulição dos aromas das tentações enquanto as mortificações corroíam no caldo espesso dos remorsos, à esquerda. Satanás exibe em close pornográfico o cigarro ordinário, sensual, industrial, na síntese incandescente de volúpia e sexo. Tabacaria sem pessoa nem chocolate e, se papéis de prata deita é só para embalsamar cadáveres de toda incompreensão, de tanta adolescência ceifada, de cada inocência imolada, nos montes e vales e rios do mar de choro de todas as lágrimas de todo sempre. Fera, fere, Satã! Saravá, Satanás!

aquarela do autor
a cor do olho não mostra o coração

O tempo corrói o disco mole incapaz de lembrar o nome do Papa que, como o outro, Pio XII, abençoou: vai, mata, eu te perdôo em nome do Pai e do Filho e de tudo mais e Satanás, emblemático, não ri, destila tabaco de sublime aroma. Norte-americano, francês, cubano? Dá-me um pouco de tabaco! - grito do fundo do vício de quatro décadas, decadente, ao Satanás só riso.

E a gargalhada do diabo traspassa gargantas expostas coma a lâmina nua da lua a espera do exorcista que treme e brande amuletos. Uiva e brada e vocifera ameaças nas fumaças de promessas e afagos recheados de dólares onde fulgura a efígie fria de Satanás. Zás!

 

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