Às vezes a ignorância tem o encanto da virgindade! Que não me crucifiquem afoitos, feministas ou zelosos guardiões dos bons costumes. Não cogito outro rapto de Sabinas nem de quaisquer outras meninas. Apenas cismo como a ignorância nos possibilita olhar sem nome, sem saber. Olhar o que for sem o peso de nenhuma informação - que é? Não sei, mas é lindo, não? É tão ciclópica a carga de informação que nos bombardeia e indecifrável saber e ignorância dispersos em bancos de dados que, a ignorância pode se tornar um privilégio, um estado de graça capaz de levar à exaltação da inocência, da virgindade. Em ano peculiar, de muita chuva seguida de súbita seca, abriu-se a primeira flor de íris, que louvei em outra parte. Agora, iguais as circunstâncias de clima à abundância da floração se repete. Abriram-se já, em dois dias recentes, vinte e poucos botões violeta, muito escuro, cor que clareia até um tom pálido, quase branco no anoitecer do dia da eclosão. Mas aprendi o nome da flor e sei um pouco sobre ela.
Amanhã se abrirão cinqüenta e sete botões que, hoje, se anunciaram como pequenos pontos escuros a irromper entre folhinhas lisas, que se fecham ao redor de cada botão como mãos em concha. Nos últimos anos multiplicaram-se os pés, surgem onde calha, até em rachaduras do chão de cimento. Perece que gostam do sol da tarde. Folhas longas e elegantes como espadas, mas moles, não dariam para esgrimir, exceto a que sustentará a florada. Nesta, um grosso talo dá estrutura ao que virá. Vão-se as flores e cada um desses bulbos lança novas plantas. Ao mesmo tempo, a folha-talo se inclina, gradativamente, rumo ao chão. Ao chegar aí, já haverá raízes e as novas plantas poderão tentar a sorte. Perde-se no entanto, pois nunca mais o espanto do roxo ao abrir a janela, como na primeira manhã em as vi. Perde-se o encanto da virgindade. |
|| |home| |índice das crônicas| |mail| |anterior|